Corpo político, inventivo, marginal

  

Esse texto pode começar com a narração de um simples acontecimento, mas que culmina em uma mudança de comportamento, de minha parte, determinante para o que foi o desenvolvimento desse projeto. Esse “simples” acontecimento, trata-se do desembarque do ônibus amarelo/UNA, a caminho da minha primeira casa, dos meus primeiros anfitriões, a família Souza, localizada em uma travessa da transcoqueiros.

Pois bem, lá estava eu, branco, paulista e com uma mala de rodinhas sofisticadas, porém adaptadas apenas a pisos niquelados de aeroportos. Logo percebi que minha insegurança burguesa tinha me acompanhado nessa empreitada, mas que estava prestes a me deixar, caso quisesse que a estadia fosse minimamente proveitosa. Mesmo sabendo que poderia me deparar com qualquer tipo de sorte, com zonas de desconforto, acabei agarrando-me em meus utensílios que supostamente me legitimam como sujeito no mundo. )brancopaulistaburguês( Foi demais, a mala era demais, pulando demais, socando demais, raspando demais no chão de terra batida. Cheia de uma bagagem que por agora incomoda, desnecessária.

Com esse e outros acontecimentos, compreendi o que era esse movimento de deslocamento e embate corpo/cultural, que me propus…. o que era estar em contato com a margem (literalmente) do meu Brasil. O turista logo iria desaparecer, pois meu papel aqui era outro, o de hóspede.

Ei que me lembrei, meu deus, do exaurido e importantíssimo Hélio (Oiticica), em sua auto-crítica ao seu condicionamento burguês em seus primeiros contatos com a Mangueira. Assim como ele necessito de certa marginalização. Estava eu me SUJANDO com o periférico deste continente que é este país.

Afinal, não foi pra isso que me prestei vir aqui?

Do que se trata esse “SUJAR-se”?

Existiu(e) na proposta um embate político, de um corpo político, em confronto com um contexto que se apresentou inventivo, totalmente espontâneo, e certamente o posicionamento mais importante pra que esse embate fosse horizontal, seria eliminar qualquer tipo de olhar colonizador, ou pelo menos não me prestar a olhar SOBRE, na verdade somente o “olhar” aqui não seria suficiente, não tratava-se da capacidade “retiniana”.

A isso se resume o “sujar-se” como dizia Manoel de Barros e Marcílio Costa. Sujar-se É imprescindível, ou pelo menos se mostrou a esse que vos escreve.

E que delícia, estou encardido. 

É claro que Belém não é feita somente de ruas de terra-batida, mas olhando pra primeira situação de residência fica fácil projetar certas percepções pra todas as outras. Ficou claro que a hospitalidade não esteve alicerçada na condição social, sob o ponto de vista ontológico, mas atuou em uma esfera mais sutíl, invisível, alicerçada em várias qualidades afetivas, generosas.

É sobre a condição de afetividade que as relações se desenvolveram, tornando aquilo que inicialmente se apresentou como zona de desconforto, em cordialidade, identificando fronteiras, mas que não as tornou barreiras. Invadindo e sendo invadido pela privacidade alheia. Tudo isso intrínseco, suportado por esse contexto marginal.

O que quero dizer com MARGINAL?

Refiro-me as estruturas de relações e de inventividade que não se sujeitaram a manterem-se quietas por não participar do contrato social, que tentou-se instituir com a era moderna no Brasil, prometido desde a construção da nossa atual capital federal, que simboliza um funcionalismo asséptico, o corte seco do vértice concretista, sem contato, sem corpos, SEM MARGEM.

A margem se refugiou nessa necessidade de expressão sem recurso, porém inventiva, espontânea, de coeficiente subjetivo, que não burocratiza seus processos de desenvolvimento. Margem que faz de uma simples ripa de madeira seu varal, de sujeitos ilhados à margem da margem uma poesia, e ainda do simples desejo de fazer, uma realização imediata, sem a masturbação mental e competitiva de outros centros.         Dessacraliza assim, certos mecanismos de linguagem, apresentando outras soluções ou formas de operar, não sendo estas apenas reinvenção, mas se tornando autônomas, construindo outros posicionamentos, tão autênticos quanto qualquer outra coisa.

Autenticidade de uma SUJEIRA ESTÉTICA, não asséptica, debordas irregulares, que permite a todo momento esse CORPO, esse contato, BREADO que seja, mas principalmente afetivo, o qual me acolheu de forma calorosa, assim como seu clima, abafado, denso.

Cito um amigo: -Ernesto(Neto), aqui realmente não existe a “critica da razão prática”.

Os corpos suam, sem medo de repreensão, os abraços são molhados, e fui assim convidado a me predispor, por uma esfera afetiva, inventiva, ao embate com os corpos, o clima, o lixo, o transito, o rio, os olhos,resumindo-se a uma anotação em meu diário:

 

 

               escreva sobre “abrir-se” a qualquer tipo de sorte

 

                 chute o condicionamento burguês

 

          vista o parangolé suado

 

         e a sorte será apenas sorte.

 

Assim o desapego de certas convenções, frente a COISA acontecendo, teve que existir, eliminando qualquer especulação que o discurso inicial poderia antecipar. Mas não foi somente em mim que as sensações reverberaram. Também foi pedido a mim que não partisse.  Como um trabalho, dito de ARTE, que pressupõem uma amostragem pública, pode atuar em uma esfera tão particular?

Fica claro que o tempo aqui, não é aquele espacializado, não conta-se as horas por quilômetros rodados.  Agora entendo as várias desistências, as várias rejeições em hospedar alguém ou algo que inicialmente não deveria adentrar o universo particular, ou pelo menos não torna-lo público. Sei é que as fronteiras e barreiras entre arte e vida se IMPLODIRAM.

Agradeço a meus queridos anfitriões por me encardirem com essa experiência, Marcílio, Elaine, Raul, Gina, Lidiane, Luiz, Lilian, Maria, Paulinho, Orlando, Ednaldo, Ester, Jorane, Victor, Mardock, Caio, Luciana.

 

 

ÉGUA…